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Carnaval na Bíblia?

Era uma vez… em um reino distante em um tempo igualmente distante uma simples mulher do povo, uma plebeia. Essa simples mulher, ou melhor, essa moça saída da adolescência, era extremamente bela. Ela havia perdido seu pai e sua mãe e fora criada pelo filho de seu tio. Era mais uma entre tantas outras mulheres deste reino.

Certo dia, o rei, por ter sido desprezado pela sua rainha, achou por bem escolher entre as moças do reino outra que ocupasse o trono ao seu lado. E desejou que fossem convidadas todas as jovens, virgens e belas moças de seu reino para estarem na sua presença. E assim aconteceu.

As escolhidas eram conduzidas a um harém do rei e neste harém deveriam ser tratadas com especial cuidado durante o período de um ano. Estes cuidados incluíam óleos especiais, perfumes e outros cuidados femininos, pois o rei as chamaria, uma de cada vez, ao final deste período.

Como vocês devem imaginar nossa querida personagem, ao ser levada à presença do rei, experimentou a grande alegria de ser escolhida como sua rainha e recebeu, das mãos do próprio rei, um grande diadema em sua cabeça que fora da antiga rainha.

Esta história é muito parecida com outras que já ouvimos desde nossa infância. E normalmente se encerram com a expressão – “E foram felizes para sempre”. Muito bonito. Acontece que a nossa história não termina assim.

 

rainha esterA nossa personagem que tem por nome Ester pertencia ao povo judeu. Na época de nossa história (aproximadamente no século IV ou V a.C.) o povo judeu foi alvo de uma intriga promovida por Amã (ou Haman), que havia sido escolhido pelo rei (de nome Assuero, rei da Babilônia, também conhecido com Xerxes ou Acháshverosh em hebraico) como seu principal ministro. Amã revoltou-se pelo fato de Mardoqueu (filho do tio de Ester, também chamado Mordechái) não se ajoelhar diante da sua presença como os demais. Mardoqueu não fazia este gesto de adoração, pois, como judeu adorava somente a Deus. E por esta revolta Amã convence o rei a emitir um edito de extermínio do povo judeu com data marcada (resultado de um sorteio)!

 

Sabendo desta situação Ester pede orações a Mardoqueu e jejua juntamente com suas servas como sua preparação para se aproximar do rei e pedir clemência para seu povo.

Havia uma lei que impedia qualquer pessoa (inclusive a rainha) de se aproximar de Assuero sem que este a convocasse. A pena para quem desobedecesse a esta lei era a morte, a não ser que o rei fizesse o gesto de erguer seu cetro em sua direção. Ester, após três dias de oração, vestiu-se com suas melhores roupas, estava extremamente bela e arriscou aproximar-se de Assuero. Este demonstra seu beneplácito à Ester que, após algum adiamento (confira cuidadosamente no livro de Ester!) solicita ao rei a revogação do edito de extermínio dos judeus. Revogação que o rei prontamente acolhe e (supreendentemente!) direciona esta matança à Amã e seus familiares. O povo judeu vê-se miraculosamente livre de uma possível perseguição fatal.

O que esta história ensina para nós cristãos do século XXI?

Em primeiro lugar fica registrado que este acontecimento é lembrado por nossos irmãos judeus na festa designada como Purim (sorteio ou lançar a sorte). Festa esta que neste ano de 2012 será celebrada dia 8 de março (coincidentemente do Dia Internacional da Mulher!). Nesta festa todo o livro (Meguilá) de Ester é lido nas sinagogas.

Esta festa de Purim é comparada, na sua forma popular, ao nosso carnaval.

Quero chamar a atenção para este ponto. Para nós o carnaval é uma festa popular (será?) que tem uma origem de certa forma cristã e que foi praticamente deturpada em suas manifestações. Uma festa que se expressa em um devaneio, uma alienação da realidade. Dias em que os papéis são trocados para extravasar. E o que sobra? Nada mais do que confetes no chão (ainda tem?), arrependimentos e um profundo vazio.

A festa de Purim, ainda que popular, relembra um fato extraordinário – uma mulher coloca a sua vida em risco para a salvação de todo o seu povo; oferece seus dons, dotes e beleza a serviço da libertação dos seus. Alguém que coloca os interesses coletivos acima de seus pessoais. Qual festa mesmo (eu disse festa e não data cívica) que os brasileiros comemoram tendo como origem uma atitude assim?

Em segundo lugar chama a atenção de que no livro de Ester não menciona o nome de Deus (aliás, é o único livro da Bíblia nesta situação). E qual o motivo para isso? A explicação é de que, na maior parte do tempo, Deus conduz a história de uma forma oculta, velada. Os grandes milagres que Deus realiza são discretos, quase imperceptíveis para aqueles que gostam de exageros, excentricidades, shows. Deus move os acontecimentos lenta e discretamente. Não é à toa que o nome de Ester, em hebraico, significa “oculto”.

Pensemos e festejemos!

Purim Sameach!

 

Postado originalmente em 04 de março de 2012

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