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Modelar ou ser modelado?

“Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo” (Gn 2,7). Saído das mãos de Deus, o Homem é modelado, trabalhado, criado. A obra de Deus se revela de forma plena na criação do homem e da mulher: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou… Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gn 1,27.31 – grifo meu). Assim se realizam os primeiros momentos desta grande história de amor entre Deus e o Homem. Opus Dei.
“Vinde! Construamos uma cidade e uma torre cujo ápice penetre os céus! Façamo-nos um nome e não sejamos dispersos sobre a terra!” (Gn 11,4) Pretensiosamente buscam os homens um caminho que lhes façam chegar aos céus. Tentam (orgulhosamente!) realizar este encontro com o Sagrado através de suas pobres mãos. Tentativa vã e ilusória. Logo se mostra fadada ao caos e à destruição: “Iahweh os dispersou daí por toda a face da terra, e eles cessaram de construir a cidade” (Gn 11,8). Opus hominis …
“Sendo assim, irmãos, temos a plena garantia para entrar no Santuário, pelo sangue de Jesus. Nele temos um caminho novo e vivo, que ele mesmo inaugurou através do véu, quer dizer: através de sua humanidade. Temos um sacerdote eminente constituído sobre a casa de Deus.” (Hb 10,19-21) Na plenitude dos tempos, realiza-se para nós a grande ação salvífica de nosso Deus! Mais uma vez ele vem ao encontro da Humanidade. Agora através de Seu próprio Filho. Descerra-se o véu do Templo, o Santo vem até nós e revela-se a si. Auto-revelação. Entrega. Kenósis. “Diz-lhe Jesus: ‘Eu sou o Caminho, a Verdade e Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim’” (Jo 14,6). Opus Christi !
“Na liturgia da terra nós participamos, saboreando-a já, da liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de Jerusalém, para a qual nos encaminhamos como peregrinos, onde o Cristo está sentado à direita de Deus, qual ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo; com toda a milícia do exército celeste entoamos um hino de glória ao Senhor e, venerando a memória dos santos, esperamos fazer parte da sociedade deles; esperamos pelo salvador, nosso Senhor Jesus Cristo, até que ele, nossa vida, se manifeste, e nós apareceremos com ele na glória” (SC 8). Convite à participação litúrgica. Entramos no jogo de amor do Amante.
Como a Sarça inconsumível no deserto atraindo Moisés, assim a Liturgia nos arrasta, terrível e sedutora, em direção ao Amor, antecipando nossas núpcias eternas.
Coisa irresistível e fascinante a Liturgia.
“Eis que, como a argila na mão do oleiro, assim sereis vós na minha mão, ó casa de Israel!” (Jr 18,6b).
Convidados, não anfitriões. Barros, não oleiros. Modelados, não modeladores. Eis-nos Senhor.

 

Postado originalmente em 06 de maio de 2008.

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